domingo, 29 de maio de 2016

DISPUTA DE QUEM MANDA UMA CUSPARADA MAIS LONGE OU GENERALIZAÇÃO DO MAL?

A nau dos insensatos está em música, sátira, obra, filme ou representação da cultura ocidental de literatura e pintura, entre tantas outras citações. No entanto, aqui, me refiro a um titulo do texto escrito pelo Doutor em educação Histórica pela UFPR e professor do Curso Positivo Daniel Medeiros, na página 2 de o Diário do Vale, de 28 de Maio de 2016, no Espaço dos Leitores. Uma reflexão interessante.
Brincadeira, podemos considerar, o ato inocente dos protagonistas de o Titanic de “ver quem cospe mais longe”. Quanto a jogar um cãozinho no mar para fazer chacota com quem pula atrás para salvá-lo, é maldade e, nos dias atuais, até crime. Que o diga a Associação de Proteção aos Animais. Mas, vamos ao texto que cita na verdade a "Nau Vera", da obra de Katherine Anne Porter.

Os passageiros da nau “Vera” são uns tolos que se julgam sagazes e autênticos. Começando pelo capitão Thiele, incapaz de estabelecer a ordem e a paz em seu navio mas autor de discursos intensos nos quais preconiza o fuzilamento dos pobres e a submissão absoluta à autoridade; ou os estudantes cubanos que buscam escandalizar e constranger, mas que só conseguem provocar risos e compaixão com suas grotescas demonstrações de falta de educação e respeito: “são exatamente os sonhos maus de seus pais”, diz um dos passageiros diante de mais uma de suas “brincadeiras”; até mesmo um casal de gêmeos, sem eira nem beira moral, jogam um cãozinho ao mar, “por diversão” e quando um dos passageiros pula e se afoga tentando salvar o pobre animal, é ridicularizado por ser ele, o que buscou resgatar um mínimo de decência, o tolo.
Finalmente, depois de festas e brigas, vexames e traições – “no navio só pensavam em fazer vigarices – o “Vera” chega ao seu destino e outros tolos embarcam, dando início a um novo ciclo aparentemente sem importância. Nessa obra magnífica concluída em 1961, a autora norte-americana Katherine Anne Porter retrata o ambiente de valores ao avesso que compôs o cenário europeu que precedeu a segunda guerra. Uma reflexão sobre como a perda da referencia ética é sim um perigoso passo para a generalização do mal.
Há alguns dias, um amigo entrou no banco e ouviu, na fila, alguns homens, com as vozes alteradas, proporem que “se matasse o Lula” e que este ato seria um ato de “patriotismo”. Meu amigo reagiu, indignado àquela incitação ao crime, e quase foi espancado pelas pessoas na agência, não só pelo grupo que conversava, mas por outras pessoas que estavam lá. Quem é o tolo dessa história? Em qual lugar o apagamento do discernimento, da civilidade, da capacidade de permitir que as ideias “briguem” sem por em risco a integridade física das pessoas, em qual lugar chegaremos? Há um porto seguro para essa nau de insensatos? Os efeitos da euforia distópica que a tudo quer destruir, fazer terra arrasada, esse sangue nos olhos , esse dedo em riste para todos, essa gana de nutrir desertos trará qual benefício para nosso país? Fogueiras e autos de fé já não nos deu a História exemplos demais para querermos sua

volta?
Todo avanço democrático sempre combinou inclusão e ampliação. Toda exclusão e restrição só alimentou discursos de violência e dor. Será que não está além da hora de se pensar em parar as diatribes inconsequentes ou então assumir de vez a face do casal de gêmeos da estória que gostava de ver o cão agonizar em meio ao oceano pelo “prazer” que a dor dos outros traz? Sapere aude.
Com base em artigo do site Central Press

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