sexta-feira, 15 de novembro de 2013

FENÔMENO PREGA INVISIBILIDADE DO INDÍO NO PAÍS

Cartaz fotografado do Livro de Funari e Pinon
Enquanto os movimentos sociais afrodescendentes são fortes e bem articulados, as associações indígenas não são facilmente reconhecidas na sociedade brasileira mais ampla. As pessoas pensam que “os índios não estão entre nós”, “vivem lá longe, na mata”, “não fazem parte do nosso mundo”. A esse fenômeno alguns estudiosos deram o nome de “invisibilidade do indígena”.A desvalorização da identidade indígena existente ainda hoje no país, a despeito das mudanças recentes na política oficial, faz com que estatisticamente os índios apareçam como pouco numerosos. Não precisa ser assim! Nos Estados Unidos, por exemplo, graças a políticas públicas de valorização da herança indígena, o número de índios contabilizados não parou de crescer.
Em 1960, havia 524 mil, em uma época em que os indígenas eram representados como “outro” cultural, os selvagens ou os malvados dos filmes de faroeste.

Em 1990, já eram 1,878 milhão e, em 2000, mais de 7 milhões de americanos declararam ter alguma ascendência indígena. Segundo os antropólogos norte-americanos John Monaghan e Peter Just, o fato se explica em grande parte à caracterização positiva do indígena nas últimas décadas. Portanto, a valorização do indígena, por meio de políticas públicas, foi fundamental para os resultados positivos constatados nos Estados Unidos.
Por que isso não acontece no Brasil? Quando um dos autores do livro “A Temática Indígena na Escola”, Pedro Paulo Funari, revelou ter ascendência indígena em um congresso científico brasileiro, as reações foram de espanto, incredulidade e, em alguns casos, de indignação: “como um branco pode dizer isso?” Nesse contexto, o fato de que muitas crianças reconheçam ter parentes indígenas mostra como a valorização do indígena, apesar de todos os problemas, avançou no país.
Por outro lado, as limitações do conhecimento sobre os índios não deixam de ser evidentes. Afirmar que os indígenas estão aqui há apenas 500 anos, como fez a maioria dos alunos pesquisados, significa desconhecer a história e, mais do que isso, desconsidera a colonização européia também como processo de expropriação.
Os índios aparecem para as pessoas como parte da natureza, da selva e, portanto, conforme o colonizador vence a floresta, nos sertão, a terra passa da natureza (e do índio) para a ordem civilizada, com propriedade privada e a exploração comercial dos seus frutos. Aos índios, nesta situação, cabe sair de onde vivem e ir mais para o interior, onde ainda há floresta, ou aceitar a nova ordem e dissolver-se na sociedade nacional, como trabalhador braçal.
E quase como se os “índios” devessem se encaixados numa das duas categorias aceitas: “brancos”, se aqui estavam, ou “africanos”, se não estavam ou não eram “brancos”. Verifica-se, portanto, que as limitações do entendimento dos alunos com a relação aos índios e à cultura indígena não se resumem à falta de informação nas escolas, mas às deficiências das políticas de valorização da diversidade cultural em voga no país.  
Texto extraído do Livro "A Temática Indígena na Escola", de Pedro Paulo FUNARI e Ana PIÑON - págs. 110, 111 e 112 -

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